Às vezes, observando determinadas cenas de novelas e filmes, nos perguntamos se realmente alguém seria possível de cometer atos tão malvados quanto aqueles personagens. Será possível que seres tão egoístas e egocêntricos com uma pedra no lugar do coração realmente existem? Desfazendo-se de dramatizações excessivas, pode-se dizer que sim. Talvez você mesmo não saiba, mas seu vizinho, seu colega de trabalho, aquele amigo mais chegado, até um parente seu, esconda dentro de si um lado obscuro da personalidade que ninguém perceba existir. É assim que podem ser descritos os psicopatas.
A ciência dá vários nomes para esse tipo de transtorno. É chamado de Transtorno da Personalidade Anti-social (DSM-IV), Transtorno da Personalidade Dissocial (CID-10). Contudo, é mais conhecido popularmente por psicopatia. Também recebe a alcunha de sociopata, mas, quando colocado em miúdos, trata-se do mesmo transtorno. Há uma grande dificuldade em diagnosticar a psicopatia, uma vez que os indivíduos que apresentam as características típicas desse distúrbio fazem o possível para não serem descobertos, seja convencendo as pessoas a sua volta de sua inocência, seja justificando seus atos maléficos a partir de determinadas óticas. Por essa razão, a maioria dos psicopatas circula entre as pessoas normais sem ser jamais detectado.
A Psicopatia não é uma doença exclusivamente de assassinos. Dependendo do grau das características típicas, ela pode ser diagnosticada como leve, moderada e severa, sendo que apenas pessoas desse ultimo grupo se constituem habitualmente como assassinos. Os demais tipos de psicopatas cometem pequenos delitos ou causam prejuízos financeiros, profissionais e emocionais a suas vítimas.
Os psicopatas são habitualmente indivíduos frios, excessivamente racionais, egocêntricos, manipuladores, parasitas, mentirosos que utilizam as pessoas para sua pura e exclusiva satisfação pessoal. Abaixo serão descritas as principais características dos Psicopatas, utilizando-se casos de assassinos conhecidos na mídia. Vale lembrar que, pela dificuldade do diagnostico exato, não há como saber exatamente se os exemplos citados são de fato psicopatas. Contudo, o comportamento deles em seus crimes são atitudes típicas de portadores desse distúrbio.
Ausência de Emoções
A característica mais marcante de um psicopata é total falta de afeto. Isso significa que esses indivíduos não sentem pena, nem empatia pelos outros, muito menos culpa por seus atos. Também não se emocionam verdadeiramente com nada e, quando o aparentam fazer é apenas uma forma de teatralizar alguma história a fim de convencer alguma vítima. O máximo que um psicopata consegue sentir são sentimentos bastante superficiais ligados a frustração e irritação, quando percebem que não podem alcançar seus objetivos do modo planejado ou quando alguém não esperado atravessa seu caminho. Psicopatas não possuem a qualidade que nos torna humano: a compaixão. Por essa razão, são movidos essencialmente pela razão envolta em atitudes que visam o benefício próprio.

O caso Suzane von Richthofen chocou o país pela frieza da jovem, de classe alta, no planejamento e execução do assassinato dos próprios pais em 2003. Considerada pela justiça como mandante, Suzane planejou com auxilio do namorado Daniel e o irmão Cristian Cravinhos o crime, que foi executado alguns dias depois, quando os irmãos, usando bastões de ferro assassinaram os pais de Suzane enquanto dormiam. Nunca foi comprovada a real participação dela no crime, no entanto, sabe-se que ela estava presente na casa no momento. Após o assassinato, os jovens ainda encenaram um assalto na casa. Descoberto o crime, os três foram presos, julgados e condenados. As motivações nunca ficaram claras, falava-se da dificuldade que Suzane tinha em manter o namoro com Daniel em função da proibição dos pais. Especulava-se também em torno de a questão da herança dos pais de Suzane. Um fato interessante: Suzane, antes de uma de suas prisões, foi ao programa Fantástico, com uma camiseta da Minnie, pantufas para mostrar fotos de família. Sobre orientações de seu advogado, Suzane tentou reinventar a imagem que a população brasileira havia adquirido dela. Nesse ponto, ressalta-se outra característica marcante dos psicopatas.
Mentira e Manipulação
Todos os psicopatas, em maior ou menor grau, utilizam-se da mentira e de jogos de manipulação para alcançar seus objetivos. Por não serem capazes de ter sentimentos mais complexos, conseguem contar uma mentira repleta de emoção como se estivesse dizendo uma verdade. São extremamente convincentes, apelando sempre para a empatia dos outros. É essa a sua porta de entrada.

Guilherme de Pádua tinha ambições que não conseguia sustentar. Ator da Rede Globo de Televisão almejava se tornar um grande astro. Para isso, não media esforços, aproximou-se de Daniella Perez, filha da escritora Gloria Perez e tentou persuadi-la de várias formas a alterar o roteiro da novela que ambos participavam a favor dele. Quando percebeu não estar chegando a lugar nenhum, Guilherme premeditou o assassinato da jovem com sua ex-esposa Paula de Almeida e a matou com tesouradas e seu corpo foi abandonado num mato na Barra da Tijuca. Guilherme foi julgado e condenado, mas cumpriu apenas uma parte da pena. Hoje realiza seminários evangélicos pelo Brasil.
Inteligência
Psicopatas são conhecidos pela sua inteligência acima da média. Conseguem elaborar e articular planos inteiros, mantendo a aparência de pessoas normais. Justamente por essa inteligência que, quando envolvidos no mercado de trabalho, conseguem altos cargos em pouco tempo. Trata-se de seres frios que utilizam sua esperteza a fim de ludibriar os outros, beneficiar a si mesmos e alcançar seus objetivos rapidamente.

Jack o Estripador (Jack the Ripper) foi o nome dado ao assassino em série desconhecido que aterrorizou Londres em 1888. Suas vítimas eram geralmente prostitutas, que tinham a garganta cortada e o corpo mutilado. Pela forma que os órgãos das vítimas eram removidos, acreditava-se que o assassino possuía conhecimento médicos. Mesmo com uma série de cartas enviadas para a polícia, uma lista bastante completa de suspeitos, o verdadeiro assassino nunca foi descoberto. Hoje Jack ainda figura na imaginação de muitas pessoas.
Charme
Uma das características que torna o psicopata um indivíduo capaz de aproximar-se e ludibriar suas vítimas com muita facilidade é o charme que exerce sobre elas. Tem uma ótima linguagem corporal, sabem com usar as palavras certas nos momentos, convencendo suas vítimas sem grande dificuldade.

Conhecido no Brasil todo, Francisco de Assis Pereira, nomeado com a alcunha “maníaco do parque”, estuprou, torturou e matou pelo menos 11 mulheres no Parque do Estado, cidade de São Paulo. O que mais surpreendeu a polícia fora como um sujeito feio, pobre e de pouca instrução conseguia atrair suas vítimas, mulheres atraentes, levá-las com sua moto até o meio do mato e matá-las. A desculpa usada era que se tratava de uma seção de fotos num ambiente ecológico. Apos dominar as suas vitimas, estuprar-las e torturar-las, Francisco as matava com um cardaço dos sapatos ou outras ferramentas. “Eu dava um jeito”, segundo ele. O maníaco do parque tinha tudo para passar despercebido por todos, era um sujeito bastante simpático com todos e querido pelas crianças.
Impulsividade
Apesar de serem excessivamente racionais, psicopatas são impulsivos quando percebem que seus planos saíram do controle. Numa explosão de raiva acabando tendo atitudes bastante intolerantes e malvadas. No entanto, passo desse estado para uma total calma logo em seguida, admitindo sem culpa qualquer ato violento que possam ter feito.

Charles Manson foi mentor intelectual e fundado de uma comunidade hippie que cometeu vários assassinatos. Considerado pelos membros desse grupo, como a reencarnação de Cristo, Mason, que dizia receber mensagens dos Beatles através de suas músicas, conduziu vários assassinatos com o propósito de iniciar uma guerra entre negros e brancos (para ele, os negros seriam culpados por esses crimes mais cedo ou tardes). No julgamento, sem a menor culpa, declarou a todos seu ódio a humanidade.
Violência e rebeldia
A psicopatia só pode ser diagnosticada em adultos. Entretanto, é possível comportamentos transgressores, tais como uso de drogas, roubo, bullying, violência e, ás vezes, até assassinato. Durante a infância e adolescência, esse tipo de comportamento é classificado como Transtorno de Conduta que, quando em casos severos, pode ser o começo do caminho rumo à psicopatia.

Um assalto a carro comum no Rio de Janeiro acabou tendo um final mais trágico do que esperado. Após homens armados renderem Rosa Fernandes, que estava com seus dois filhos, ao sair do carro, o cinto de segurança de um dos seus filhos, João Helio de seis anos, acabou ficando preso, deixando o menino pendurado do lado de fora do carro. Os assaltantes arrancaram com o carro e vagaram sete quilômetros, arrastando a criança pelo asfalto. Mesmo com os avisos dos perdestes e outros motoristas, o corpo da criança foi apenas abandonado bem mais tarde em uma rua. Dentre os envolvidos, encontrava-se um menor de idade, que acabou recebendo uma pena mais branda que os demais envolvidos. Esse fato originou uma longa discussão sobre a redução da maioridade penal.
A questão da Cultura
Apesar de apenas hoje se ouvir falar com freqüência da psicopatia, ela sempre existiu na história da humanidade. Desde líderes tiranos até membros de seitas religiosas, todos possuíam algumas características que poderiam enquadrá-los como psicopatas. Apesar de a cultura não ter relação direta com o surgimento da psicopatia, durante séculos e sociedades diferentes, ela contribuiu de forma indireta para reprimir ou acentuar o comportamento sociopata, através da constante mudança de valores, muitas vezes, não muito bons. A sociedade de hoje contribui para que o comportamento dos psicopatas seja mascardo mais facilmente. Valoriza-se hoje o caminho mais rápido e fácil de alcançar objetivos, o egocentrismo e a excessiva competição em detrimento da deterioração de valores humanos, características que são inatas aos psicopatas. Por essa razão, esses indivíduos conseguem ascender rapidamente em seus empregos, alcançando cargos de chefia em várias empresas. O único modo de alterar essa realidade é uma reestruturação dos valores e a valorização do ser humano acima de tudo, o que, talvez, nunca ocorra de fato.
Causas e Explicações
Mesmo com todas as medidas socio-educativas de modificação de comportamento e medicação psiquiátrica não há um tratamento realmente efetivo contra a psicopatia. Estudos apontam que, apesar de ser determinada pela cultura, a capacidade do ser humano em possuir um código moral provém da capacidade do cérebro em interagir as áreas responsáveis pelas emoções (sistema límbico) e pelas funções ligadas a razão (lobo pré-frontal e o córtex medial pré-frontal). Dessa interação é produzido o comportamento socialmente aceito (justamente a incapacidade de fazer essas ligações que originou o nome sociopatia). Analisando o cérebro de indivíduos considerados psicopatas utilizando equipamentos de neuroimagens (RMf e PET-SCAN), percebe-se uma atividade menor na amígdala (parte do sistema límbico/afetivo responsável pela ativação das emoções) e o lobo frontal (centro executivo do cérebro), ao serem estimuladas a imaginarem cometendo atos imorais ou perversos. No entanto, mesmo com uma deficiência grave no que condiz as emoções, um indivíduo que possui propensão a psicopatia pode ter determinadas características amenizadas, se houver um trabalho sistemático desde a infância. Apesar de o ambiente ter uma parte de influência, nesse caso, é geralmente o biológico que prevalece.
O que fazer então?
Como não há um tratamento para a psicopatia, a saída é reconhecer o psicopata e evitar contato com ele. Evitar confiar em pessoas que pareçam simpáticas demais num primeiro momento e ouvir o que seu “sexto sentido” tem a dizer auxiliam bastante nisso. Evitando o contato inicial, não se entra no jogo de intrigas e manipulação característica marcante dessas pessoas. Estar bem consigo mesmo é uma arma poderosa nesses casos, evitando-se ser manipulado a partir de bajulações e elogios forçados. É normal do ser humano procurar explicações para atitudes que parecem ser irracionais, mas, no caso dos psicopatas não há muito a ser explicado. Mesmo em tratamento, vários profissionais treinados nada conseguem em termos de recuperação desses indíviduos. Pelo contrário, psicologos e psiquiatras acabam fornecendo novas armas de manipulação para eles: o conhecimento técnico sobre o comportamento humano. Mesmo com todas as precauções e cuidados, não há garantia de proteção contra psicopatas; mestres em disfarçar suas intenções estão sempre à caça, prontos para fazer novas vítimas.